Biografia

Com ele a Amazônia “pode mais”

No início dos anos 90, a geração cara pintada dava os primeiros passos pelas ruas do Brasil nas frentes de luta do movimento estudantil. No Amapá, um garoto magrinho, com cabelo bem preto e espetado, de sotaque pernambucano, liderava as passeatas pelo Fora Collor, organizava grêmios nas escolas secundaristas e se metia em todo tipo de debate político que aparecia pela frente. Entre os 13 e os 16 anos, o jovem Randolph Rodrigues – o “ph” do nome foi substituído por “fe” quando se tornou candidato a cargo eletivo – já era a mais barulhenta liderança estudantil em Macapá.

Filho de sindicalista do PT, cedo rompeu com a corrente do pai, o urbanitário Januário Martins, para se juntar aos grupos mais à esquerda do partido. Mas, isso não o fez menos obediente em família. Até hoje, Januário cerca o filho de cuidados, fiscaliza a saúde e cobra a presença de Randolfe nos almoços e celebrações familiares.  Do tempo que pedalava uma bicicleta velha até o campus da Universidade Federal do Amapá, onde cursou História, aos dias de hoje, Randolfe tem a mesma impressionante paixão pela política. Mestre em Políticas Públicas, também se graduou em Direito para compor o arcabouço de conhecimentos necessários para seu mister.

Senador  Randolfe Rodrigues, da REDE do Amapá Costuma dizer que é professor de profissão e que a política é sua paixão. Por essa razão não abandona a sala de aula. Toda semana chega a Macapá na sexta-feira à tarde, ministra aula de direito constitucional para uma turma de graduação à noite, cumpre agenda intensa no final de semana e retorna na segunda-feira para Brasília. A rotina de trabalho de Randolfe “cansa só de olhar”, como se diz no Amapá. Até o ascensorista do elevador do Senado andou perguntado “de onde é esse senador?”. O homem só sai depois do último parlamentar e Randolfe, quase invariavelmente, é o último a deixar a casa.

Aos 38 anos, com cara de menino e riso fácil, foi apelidado de Harry Potter quando resolveu disputar a presidência do Senado contra José Sarney, jogando farofa na festa da unanimidade. Randolfe recorreu ao filho Gabriel, de 15 anos, sua cópia mais rechonchuda, para entender a saga do bruxo adolescente. Não deixa escapar nada, e queria saber o que significava aquele apelido e, sobretudo, suas nuances subjetivas. Não deu outra, o que mais lhe perguntaram os jornalistas foi “quem é o Voldemort?”, inimigo de Harry na saga.

Para responder a essa pergunta o jovem senador do Amapá exercitava outra de suas habilidades, a diplomacia: “todos aqueles que fazem da política instrumento de conquistas pessoais e vitimam a sociedade”. Essa característica surpreendeu grande parte dos decanos do Senado. Para quem esperava um senador estridente e radical, devido ao seu partido, encontrou um político habilidoso, que dialoga e diz tudo o que precisa e quer dizer com equilíbrio e “elegância”, expressão utilizada pela imprensa nacional para identifica-lo.

Randolfe tem outra característica incomum entre políticos, a capacidade de rir de suas próprias gafes. Depois de eleito foi a Brasília acertar detalhes da posse e fazer os primeiros contatos. Um assessor do partido disse a ele que um general das Forças Armadas queria lhe falar. Imediatamente lhe assaltou o pensamento: “Ué! Mas, o que eu fiz? Faz tempo que saí do movimento estudantil”. O general se aproximou e armou a continência, Randolfe estendeu a mão, que ficou ali no ar. O assessor soprou a cola: “O senhor tem que dizer ‘à vontade’ para que ele desarme a continência”. Ele conta isso dobrando a risada.

Brincalhão e gentil, aprendeu a ser convincente sem forçar a barra. Ouve as pessoas em quem confia, mantém uma relação fraterna com seu grupo de trabalho, mas a decisão final vem sempre de seu olhar de lince sobre a política e a conjuntura. Aliado a isso carrega outra rara característica, vira a página das desavenças e não pessoaliza o debate politico. Utiliza sempre a expressão “não vamos fulanizar a disputa”. Por essa e outra razão consegue transitar entre os mais diversos seguimentos da sociedade com naturalidade.

No Senado quer fazer “a grande política”. Para a Amazônia pensa e articula um bloco de desenvolvimento solidário com o platô das guianas e a Venezuela. Para o Brasil quer “uma reforma política com participação popular”; defende a cassação popular de mandatos. Quer também mais autonomia para órgãos de fiscalização e combate à corrupção. No Amapá acredita na consolidação de um bloco hegemônico progressista para resgatar o compromisso com os mais pobres, as políticas sustentáveis a integridade na política. Parece muito, mas ele nem dimensiona. “Nós podemos mais”, é seu lema.